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umacartaforadobaralho

"o segredo é teres sempre uma carta na manga"

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Uma carta (fora da) minha primeira paciente

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    A minha primeira paciente era uma senhora com os seus 70 anos de idade, olhar simpático e com um sorriso meigo. Mas não foi sempre assim que eu a vi.

    A primeira vez que a Dª. Mariana* entrou no meu consultório ela vinha de semblante triste, cabisbaixa e muito frágil. Tinha sofrido um luto inesperado há pouco tempo, e como o seu médico de família a vira tão chorosa nas suas consultas, mandara-a para uma consulta de psicologia. E fui eu, recente estagiária, acabadinha de chegar da faculdade, que ficara encarregue do caso. 

    Devo-vos confessar que no início fiquei apavorada. O meu primeiro caso clínico envolvia uma morte, o luto de um ente querido! Estudei muito, li, e tentei ao máximo conhecer melhor esta senhora. O meu único objetivo era fazer parar o seu choro incessante de cada consulta. Só queria que ela se sentisse melhor.

    Percebi que havia muito mais do que um luto por detrás da sua tristeza, algo que nem vale a pena explorar aqui. Digamos que nos últimos anos não tinha tido muitos motivos para sorrir, e aquela morte só havia vindo piorar o que - há muito -  estava por resolver.

    Não foi fácil, mas durante 6 meses que tive o meu estágio curricular, recebi a tristeza da Dª. Mariana, tentei ao máximo ser o suporte da sua tremenda dor de há muito, e desafiei-lhe novas formas de pensar e agir, para melhorar o seu bem-estar.

    Hoje tenho saudades de conversar consigo, Dª. Mariana... e tanta curiosidade em saber como está! O que é feito de si? Estará melhor do que a última vez que a vi? É triste pensar que, possivelmente, nunca mais vou ter notícias da primeira paciente que me passou pelas mãos... 

    Escrevo para lhe dizer, Dª. Mariana, o quanto me fez crescer enquanto psicóloga, e ser humano. Eu acredito que os pacientes aprendem muito com os seus psicólogos, mas os psicólogos também aprendem muito com os seus pacientes! E nem tão cedo me vou esquecer de si, da sua história, e do seu sorriso tímido (quando finalmente apareceu!). Foi a minha primeira paciente, e vai ter sempre um lugar especial no meu coração. 

    P.S.: Ainda guardo todos os desenhos que me deu, na nossa última consulta - quando descobriu que o meu estágio terminara -, junto à minha mesinha-de-cabeceira. 

 

*O nome foi alterado para proteger a identidade da paciente.

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